O panorama energético global está a atravessar uma das suas transformações mais sísmicas desde a crise do petróleo de 1973.

No epicentro desta mudança, encontra-se o African Atlantic Gas Pipeline (AAGP), um projecto de 25 mil milhões de dólares que pretende unir a Nigéria a Marrocos através de uma linha de aço de 7.000 quilómetros.Para se compreender a magnitude do AAGP, é necessário olhar para os números que o definem.

Dos seus 7.000 quilómetros de extensão, aproximadamente 5.600 quilómetros serão instalados em regime offshore, o que o tornará o gasoduto submarino mais longo do mundo. O projecto foi desenhado para atravessar as águas territoriais de 13 países, uma proeza diplomática sem precedentes que culmina agora, em 2026, com a assinatura do Acordo Intergovernamental (IGA).

A capacidade de vazão do projecto é robusta, com cerca de 30 mil milhões de metros cúbicos de gás anualmente. Para colocar este valor em perspectiva, esta capacidade poderia cobrir cerca de 15% das necessidades de importação da União Europeia, oferecendo uma alternativa estratégica e estável ao gás proveniente do Leste Europeu.

O financiamento de 25 mil milhões de dólares está a ser estruturado através de um modelo complexo de Project Finance. A estratégia adoptada pela ONHYM de Marrocos e pela NNPC da Nigéria, optou por uma Decisão Final de Investimento (FID) faseada por segmentos onde cerca de 30% do capital é assegurado pelas empresas estatais dos dois países líderes, enquanto os restantes 70% estão a ser captados junto de fundos soberanos do Golfo, como o PIF da Arábia Saudita, e instituições como o Banco Islâmico de Desenvolvimento e o Fundo da OPEP. Este modelo reduz o risco sistémico, permitindo que trechos como a ligação entre os campos de gás do Senegal e da Mauritânia até Marrocos entrem em funcionamento e gerem receita antes mesmo de o projecto estar totalmente concluído.

O impacto económico esperado é massivo, tendo em conta que analistas projectam um crescimento adicional de 2,5% a 4,8% no PIB anual dos países atravessados, impulsionado pela redução drástica dos custos de energia para indústrias pesadas e fábricas de fertilizantes.

O gás não será apenas exportado. A estratégia marroquina prevê que, de toda a renda obtida, cerca de um terço fique retido ao consumo interno africano, servindo para alimentar o complexo industrial de fosfatos de Marrocos e as redes eléctricas de países como o Gana e a Costa do Marfim. O excedente será injectado na rede europeia através da ligação existente no Gasoduto Magrebe-Europa (GME), transformando Marrocos na "ponte" indispensável entre os recursos da África Subsaariana e a procura industrial europeia.

Com o horizonte de 2031 para o fluxo do "primeiro gás", o Gasoduto Marrocos Nigéria deixa de ser uma promessa política para se tornar a realidade infraestrutural mais ambiciosa alguma vez tentada em solo africano. É o início de uma nova era onde a soberania energética de África e a segurança da Europa caminham lado a lado.