Os dados operacionais do primeiro quadrimestre de 2026 indicam uma desaceleração contínua, com o indicador a fixar-se em 11,58% em Abril, face aos 15,7% registados no encerramento do ano econômico de 2025.

Embora o Comité de Política Monetária tenha sinalizado confiança ao cortar a taxa de juro directora de 17,5% para 17,0% em Maio, uma avaliação detalhada das componentes do balanço de pagamentos e da matriz de oferta interna sugere que a consolidação desta trajectória de desinflação permanece condicionada por factores exógenos e assimetrias estruturais.

A estabilização da taxa de câmbio — que flutuou numa margem estreita entre 902 e 913 kwanzas por dólar entre Janeiro e Abril de 2026 — tem sido o principal mecanismo de transmissão para a redução do índice de preços no consumidor.

A injecção de 4,5 mil milhões de dólares no mercado cambial durante o primeiro quadrimestre assegurou a liquidez necessária para conter as expectativas de depreciação do kwanza. Contudo, os dados apresentados pelo Departamento de Mercados do BNA confirmam a persistência de uma elevada correlação entre a estabilidade cambial e o desempenho do sector petrolífero, que foi responsável por 42% da oferta global de divisas em 2025.

O actual “equilíbrio” de curto prazo é fortemente sustentado pela conjuntura internacional do mercado de commodities, onde o barril de petróleo Brent se fixou acima dos 100 dólares nos últimos meses devido a tensões geopolíticas.

Do ponto de vista analítico, isto implica que o comportamento da inflação em Angola continua exposto à volatilidade dos termos de troca.  Uma eventual inversão no preço do crude testará a capacidade de intervenção do banco central e a resiliência das reservas internacionais líquidas.

A inflação angolana possui uma forte componente não monetária. A escassez de infra-estruturas logísticas, os custos de armazenamento e a dependência crónica de insumos agrícolas e bens de consumo importados criam uma rigidez de preços que reage de forma lenta aos estímulos de taxa de juro.

Portanto, o alívio de 50 pontos base nas taxas de facilidade permanente de cedência e absorção de liquidez poderá ter um impacto marginal no crescimento do PIB — mantido nas projecções oficiais em 3,5% para 2026 —, funcionando mais como um sinalizador de confiança macroeconómica do que como um indutor de crédito imediato.

Para que a meta de inflação de um dígito em 2027 seja alcançada de forma sustentável, a política monetária precisará de ser acompanhada por uma coordenação fiscal e estrutural rigorosa. O cenário externo apresenta riscos adicionais, destacados pela revisão em baixa do crescimento económico global pelo FMI para 3,1%, o que pode contrair a procura global de energia a médio prazo.

Adicionalmente, a persistência de pressões inflacionistas subjacentes nas economias avançadas introduz o risco de inflação importada. Como Angola mantém uma matriz de importação concentrada, qualquer apreciação global de bens manufacturados ou custos de frete internacional poderá pressionar a balança comercial.

Os progressos apresentados pelo Banco Nacional de Angola demonstram uma gestão técnica eficaz dos instrumentos de política cambial e monetária face às condições macroeconómicas vigentes. A convergência da inflação para os 11,58% demonstra o impacto positivo da estabilização do kwanza.

No entanto, a transição de um regime de inflação moderada para uma meta estrutural de um dígito exigirá mais do que a calibração de taxas de juro. A sustentabilidade das metas do BNA para 2027 dependerá fundamentalmente da redução da elasticidade da taxa de câmbio em relação ao preço do petróleo e do aumento real da produtividade interna nos sectores não petrolíferos.